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A agricultura brasileira está turbinada

Autores: Antônio M. Buainain e Pedro Loyola

Teve início mais uma grande safra de grãos no Brasil, que pode superar a marca de 200 milhões de toneladas. Mérito, principalmente, do agricultor brasileiro, empreendedor destemido que enfrenta, quase desamparado, os riscos climáticos e de mercado, os déficits de infraestrutura e até mesmo a incompreensão de parte da sociedade, que ainda não se desligou da representação dos velhos coronéis que em nada corresponde ao produtor rural de hoje.

É preciso reconhecer a contribuição do governo federal, que compreendeu que sem algum apoio o setor não aproveitaria a bonança do mercado internacional e nos últimos anos vem turbinando a agricultura com crédito mais acessível e adequado para atender às demandas e especificidades setoriais. De fato, entre 2008/2009 e 2013/2014, a oferta total de recursos oficiais para a agricultura saltou de R$ 78 bilhões para R$ 158 bilhões, e apenas nos últimos dois anos deve ter um impressionante crescimento real acumulado de 40%.

Além da linha de custeio, destinada a cobrir os gastos correntes de produção, sementes, combustível, folha de pagamento, manutenção de máquinas, etc., a expansão dos programas especiais voltados para o financiamento de investimentos em máquinas, construção e ampliação de armazéns e implantação da chamada agricultura de baixo carbono (ABC) também foi fundamental tanto para ampliar a capacidade de produção do setor como para aumentar a eficiência produtiva e melhorar a sustentabilidade ambiental.

Em todos esses quesitos a agricultura é líder e o resultado mais visível da injeção de recursos é o crescimento da produção muito mais rápido do que o da dotação de infraestrutura, emperrada pelo viés ideológico que atrasou as concessões para o setor privado e prejudicou o desenvolvimento do País. Vamos aguardar o balé de caminhões dançando no barro e a medição das filas nos portos para saber se neste ano bateremos o recorde anterior: 30 km na entrada de Santos. E torçamos para que seja o último espetáculo!

O elogio à política de crédito não se estende à gestão do seguro rural, principal mecanismo de mitigação de riscos na agricultura. Estima-se que mais de 80% das lavouras estejam nas mãos de São Pedro, à mercê do tempo e sem nenhum tipo de mecanismo para proteger o produtor e a sociedade. Brincamos com a galinha de ovos de ouro e deixamos a agricultura correr um risco desnecessário, com potencial para destruir o que vem sendo duramente construído desde o final dos anos 90, após a renegociação das dívidas dos agricultores, vítimas dos desacertos da política econômica e da inflação.

O governo tem prometido recursos para o programa de subvenção, mas não os libera em tempo, o que dificulta a atuação eficaz das seguradoras, seja para indenizar os produtores sinistrados, seja para atrair capital internacional do resseguro, indispensável para bancar o risco do negócio.

Em julho de 2014 deve entrar em vigor uma resolução que torna obrigatória a contratação do seguro para a concessão do crédito oficial, até o limite de R$ 300 mil. Com o seguro privado em compasso de espera por causa das hesitações do governo, pergunta-se: quem vai oferecer o seguro aos agricultores?

Há muitos desafios a vencer, pois, da mesma maneira que os efeitos positivos da expansão do crédito ao consumidor e das isenções transitórias e seletivas de impostos se esgotaram, a concessão turbinada de crédito rural tende a perder fôlego e capacidade para estimular o crescimento setorial.

Os custos de produção cresceram 20% no último ano-safra (para uma inflação de 5,5% no mesmo período) e seria suficiente uma pequena queda nos preços para comprometer a rentabilidade e a competitividade de milhares de agricultores. É preciso, portanto, acelerar todos os PACs e destravar de vez os investimentos em infraestrutura no País. O certo é que não se resolve o desafio da agricultura somente com a marcha forçada do crédito rural. É preciso muito mais!

 

*Antônio M. Buainain e Pedro Loyola são, respectivamente, professor do Instituto de Economia da Unicamp e economista da Federação de Agricultura do Estado do Paraná (FAEP).

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, Opinião/SP